14 de Maio, 2010

Dieta do Dr. Robert Atkins está de volta, desta vez com mais ciência e bioquímica em seu suporte, “uma dieta que pode ser interessante para uma pessoa saudável, sem problemas renais nem cardiovasculares”

Autor: O Primitivo. Categoria: Ciência| Dieta| Mitos

Foto: "Atkins bites back", Daily Mail.

LLVLC EXCLUSIVE: New Atkins Diet Book By Today’s Top Low-Carb Researchers Set To Release In March 2010

T. Colin Campbell Urges Action On New Atkins Book, Says It Is ‘Very Misguided’ On Science

Parece que o fantasma do Dr. Robert Atkins está de volta para vir atormentar e apavorar o lóbie "low-fat" (ou seja, todos os médicos e nutricionistas actualmente vivos) e também o lóbie vegetariano/vegano (escudado "cientificamente" nos EUA num grupo fanático que se auto-intitula Physicians Committee for Responsible Medicine), justamente com a publicação do "seu" mais recente livro "THE NEW ATKINS FOR A NEW YOU" (Mar/2010). Todos os jornais e imprensa estão a falar desta novidade (Daily MailUSA Today, MSNBC, WebMD, etc.), e parece que até o vegetariano/vegano Dr. Collin Campbel decidiu ir meter-se onde não é chamado, comentando o novo livro na Amazon. Portanto, estão todos nitidamente nervosos com este reaparecimento da Dieta Atkins, da qual aliás não sou especial apologista, mas entendo a sua utilidade, pelos (quase muito) sólidos princípios metabólicos e bioquímicos em que assenta, agora também com mais estudos científicos em seu suporte. Para entender melhor do que estamos aqui a falar, oiça, por exemplo, as muito interessantes entrevistas com o Dr. Eric Westman, Dr. Steve Phinney e Dr. Ronald Krauss no Me and My Diabetes, e também a entrevista do Dr. Eric Westman no Low-Carb Show. Para quem não sabe, o Dr. Robert Atkins foi um genial cardiologista, infelizmente falecido em 2003, talvez o primeiro médico a compreender que uma dieta "low-carb", ou mesmo cetogénica, possuía grandes vantagens metabólicas para os seus pacientes, principalmente para os insulino-resistentes querendo perder peso, para os doentes cardiovasculares (gorduras animais/saturadas modelam favoravelmente o perfil lipídico) e para os diabéticos (para quem não sabe, diabetes é essencialmente uma doença que se traduz em, embora não necessariamente causada por, intolerância a hidratos de carbono de alto IG, dos modernos e processados). E com efeito é uma ideia natural e inteligente, a eliminação de certos alimentos modernos/neolíticos, que são reconhecidos desreguladores endócrinos, causadores de inflamação e promotores de doenças várias, nomeadamente cardiovasculares e auto-imunes, como os cereais saudáveis/amidos/trigo, os açúcares refinados/doçarias, os adoçantes artificiais/HFCS, os óleos vegetais poliinsaturados, etc. E é claro que uma nova dieta, com estes pressupostos mais naturais, desde que centrada em alimentos tradicionais, minimamente processados e de produção orgânica, tem claro carácter anti-inflamatório e previne/combate a hiperinsulinémia. Independentemente de 50 ou 70% da sua energia provir de gorduras, desde que sejam das boas. Uma dieta nestes moldes constitui necessariamente uma aproximação às dietas primitivas/tradicionais, também protectora contra doenças cardiovasculares, que eram a preocupação principal de Atkins. E portanto, por mais paradoxal que possa parecer, uma pirâmide alimentar à la Chispes e Couratos é obviamente mais "saudável e equilibrada" (para usar o jargão nutricionista) que qualquer outra pirâmide ou roda oficial, por regra "low-fat", hipoproteica, semi-vegetariana e pejada de cereais/amidos modernos. Ou seja, precisamente a dieta que serve de base à actual crise hiperinsulinémica da civilização, caracterizada por uma epidemia mundial de obesidade, insulino-resistência, doenças cardiovasculares, diabetes, cancro, doenças autoimunes, etc. Sim, a mesma dieta que os nutricionistas adoram recomendar, com base nessa sua ideologia muito recente e que, até à presente data, pouco mais fez que introduzir um completo caos na alimentação humana. Infelizmente, como sabemos, os actuais auto-intitulados "especialistas" em alimentação humana, são por regra nutricionistas ou médicos curiosos da nutrição, mas que se recusam a olhar para os estudos científicos (até porque claramente desconhecem as várias fraquezas dos estudos em geral, nem sabem das várias subtilezas da epidemiologia) e estão convencidos que uma dieta cetogénica é um passaporte para um entupimento arterial acelerado e com graves consequências renais, este último um mito médico-urbano que cientistas como Lyle McDonald há muito desmistificaram (se dietas hiperproteicas fossem nocivas para o sistema renal de pessoas saudáveis, praticantes de cultura física estariam com problemas, mas não estão com nenhum, pois não?). "Uma dieta muito desequilibrada" (porque não tem cereais modernos e processados como o muesli, flocos de aveia, Kellogg’s Special K, Fitness?), "hiperproteica e hipergorda" à base de proteínas animais (seriam preferíveis proteínas de soja saudável?), "em que as gorduras saturadas são permitidas", pelo que "não convém fazer durante muito tempo", dizem os nossos "especialistas". É, de facto, uma pena que não se actualizem e só estejam interessados na sua ideologia "low-fat", esta construída na sombra de uma hipótese científica falseada desde o início, e já aqui muito comentada, a malograda hipótese lipídica. Onde está o citado "desequilíbrio", será pelo facto de 50% de energia não provir de hidratos/amidos modernos? Mas onde se foi inventar esta incompreensível percentagem fixa, sem qualquer base evolucionária/antropológica? Embora não pareça, a ideia deste artigo não é simplesmente criticar (embora elas mereçam) estas mentalidades modernas da nutrição. Estão claramente instaladas num contexto equivocado, incapazes de aceitar que as suas recomendações não deviam gravitar em torno de uma ideologia monotónica e ao serviço de lóbies alimentares, totalmente desenquadrada de princípios evolucionários, biológicos, culturais, científicos, bioquímicos, etc. Nem é estar aqui a defender o lóbie low-carb/Atkins, que aliás não precisa de defensores porque já tem um brilhante Jimmy Moore, e que eu tanto defendo como já critiquei, designadamente por essa divagação lírica que é a vantagem metabólica e a ideia louca de que perda de peso não necessita de défice calórico. Mas é somente chamar a atenção, se é que eventuais leitores deste blogue ainda não se aperceberam, para o facto de que praticamente TODAS as actuais recomendações oficias sobre alimentação estão erradas/equivocadas, porque são produzidas em regra por pessoas que entendem imenso de nutricionismo mas que não dominam em quase nada a alimentação humana. E convém não esquecer que ALIMENTAÇÃO, seja ela  tradicional ou ancestral (os estilos de vida/dietas que nunca deveríamos ter abandonado), é uma coisa muito vasta, envolve evolução/biologia, cultura/tradição, história/etnografia, muito para além da saúde. São portanto duas coisas completamente diferentes, nutrição e ALIMENTAÇÃO!

Download: saberviver-new-atkins-mitos.jpg

 

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ARTIGOS LOW-CARB/DIETA CETOGÉNICA:

 

- Meta-analysis of prospective cohort studies evaluating the association of saturated fat with cardiovascular disease. Patty W Siri-Tarino, Qi Sun, Frank B Hu, and Ronald M Krauss, Jan. 2010 (pdf)

- Dietary Fat and Coronary Heart Disease: Summary of Evidence from Prospective Cohort and Randomised Controlled Trials. C. Murray Skeaff Jody Miller, Department of Human Nutrition, University of Otago, Dunedin, New Zealand (pdf)

- Dietary carbohydrate restriction induces a unique metabolic state positively affecting atherogenic dyslipidemia, fatty acid partitioning, and metabolic syndrome (pdf)

- Low carbohydrate diets improve atherogenic dyslipidemia even in the absence of weight loss (pdf)

- Carbohydrate Restriction has a More Favorable Impact on the Metabolic Syndrome than a Low Fat Diet. Jeff S. Volek, Stephen D. Phinney, Cassandra E. Forsythe, Erin E. Quann, Richard J. Wood, Michael J. Puglisi, William J. Kraemer, Doug M. Bibus Maria Luz Fernandez, Richard D. Feinman (pdf)

- Comparison of Low Fat and Low Carbohydrate Diets on Circulating Fatty Acid Composition and Markers of Inflammation (pdf)

- A reappraisal of the impact of dairy foods and milk fat on cardiovascular disease risk. J. Bruce German, Robert A. Gibson, Ronald M. Krauss, Paul Nestel, Benoıt Lamarche, Wija A. van Staveren, Jan M. Steijns, Lisette C. P. G. M. de Groot, Adam L. Lock, Frederic Destaillats (pdf)

- The Effects of a Low-Carbohydrate Ketogenic Diet and a Low-Fat Diet on Mood, Hunger, and Other Self-Reported Symptom. F. Joseph McClernon, William S. Yancy, Jr., Jacqueline A. Eberstein, Robert C. Atkins and Eric C. Westman (pdf)

- Schizophrenia, gluten, and low-carbohydrate, ketogenic diets: a case report and review of the literature. Bryan D Kraft and Eric C Westman (pdf)

- Non-alcoholic fatty liver disease and the metabolic syndrome: Effects of weight loss and a review of popular diets. Are low carbohydrate diets the answer? Harjot K Gill, George Y Wu (pdf)

- Are refined carbohydrates worse than saturated fat? AJCN, April 21, 2010, Frank B. Hu (pdf)

 

Fonte: Nutrition and Metabolism Society.

 

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