28 de Julho, 2009
Mortalidade cardiovascular (coronária e vascular cerebral) e mortalidade total em função do colesterol total
Fonte: Serum cholesterol levels and six-year mortality from stroke in 350,977 men screened for the multiple risk factor intervention trial. (Adaptado.)
O Whole Health Source publica um artigo analisando a mortalidade total e cardiovascular no estudo MRFIT. Por acaso fui o primeiro a comentar este artigo, falando das desvantagens de níveis baixos de colesterol, uma substância que é vital à nossa saúde, designadamente para o nosso cérebro e para a formação de vitamina D. Note-se que a mortalidade total é representada por uma curva em U, ou seja, tem um mínimo, que por acaso até é bastante amplo, vai desde cerca de 160 mg/dl até aos 220 mg/dl. Níveis de colesterol total (CT) mais elevados estão indubitavelmente associados (note-se a palavra "associado", com um sentido epidemiológico bem definido) a maior mortalidade cardiovascular. Mas não total! E isto não significa necessariamente causalidade, não quer dizer que maior CT implique, cause, produza, doença cardiovascular. Até porque o mecanismo fisiológico associado à aterosclerose é de uma enorme complexidade, que nitidamente ainda não se domina. E não me venham dizer que pessoas com HDL acima de 100 mg/d, CT necessariamente alto e TG muito baixo, correm sério risco cardiovascular, porque isso não acontece na realidade.
A níveis de CT "elevados", a moderna hipercolesterolémia, que é algo que eu não entendo ao certo o que significa, por exemplo no intervalo 200 a 260 mg/dl, não está de forma alguma associada maior mortalidade total. Definitivamente, não serão piores que um colesterol "saudável" entre 160 e 200 mg/dl. Note-se que nesta gama a mortalidade varia de 175 a 200 /100.000 hab. Ou seja, pouco varia. Se no gráfico acima se sobrepusessem umas curvas de mortalidade por cancro, suicíduo, infecções, doenças asssociadas a défice de vitamina D e de colesterol, etc., certamente que todos passaríamos a querer ter CT mais "alto". É verdade, eu já disse que cerca de 80% da população possui CT na ampla gama aqui discutida, cerca 160 a 260 mg/dl? Por outras palavras e ao contrário do que você aprendeu naquele anúncio de margarinas, para a maioria da população, a mortalidade pouco ou nada varia com o CT. E como referido, isto é apenas uma associação epidemiológica, não signfica causalidade. Surpreso com este facto?
A Dr. Mary Enig diz que níveis de CT saudáveis se situam nos 200 a 240 mg/dl. E não tenha dúvidas, se você morrer por causas cardiovasculares, certamente morrerá com CT mais baixo que o da média da população! Em face destas evidências, ainda faz algum sentido estarmos preocupados com o CT? Será que a saúde em geral, em que se inclui também a saúde cardiovascular, pois claro, não depende muito mais do tipo de lípidos no nosso corpo e da sua vulnerabilidade à oxidação, características estas modeladas pela nossa dieta e pelo nosso estilo de vida, do que propriamente da sua quantidade total, como pretente a hipótese lipídica clássica? Não faria muito mais sentido começarmos a prestar atenção à glicémia pós-prandial / tolerância à glucose, à hemoglobina glicosilada, à insulina, cujos mecanismos se entendem muito melhor, e a outros parâmetros secundarizados, pelo menos relativamente ao CT e à sua fracção LDL, mas muito mais importantes e decisivos que estes? É que o tempo vai passando, continuamos neste embrólgio da hipótese lipídica, a recomendar dietas hiperglicémicas para a população e já com 12% da população adulta portuguesa é diabética! Estamos mais à espera de quê?
Serum cholesterol levels and six-year mortality from stroke in 350,977 men screened for the multiple risk factor intervention trial. (pdf)
Division of Epidemiology School of Public Health, University of Minnesota, Minneapolis 55455.
We examined the relation between the serum total cholesterol level and the risk of death from stroke during six years of follow-up in 350,977 men, 35 to 57 years of age, who had no history of heart attack and were not currently being treated for diabetes mellitus. The diagnosis of stroke and the type of stroke were obtained from death certificates. Using proportional-hazards regression to control for age, cigarette smoking, diastolic blood pressure, and race or ethnic group, we found that the six-year risk of death from intracranial hemorrhage (International Classification of Diseases, ninth edition [ICD-9], categories 431 and 432) was three times higher in men with serum cholesterol levels under 4.14 mmol per liter (160 mg per deciliter) than in those with higher cholesterol levels (P = 0.05 by omnibus test across five cholesterol levels). On the other hand, a positive association was observed between the serum cholesterol level and death from nonhemorrhagic stroke (P = 0.007). The inverse association of the serum cholesterol level with the risk of death from intracranial hemorrhage was confined to men with diastolic blood pressure greater than or equal to 90 mm Hg, in whom death from intracranial hemorrhage is relatively common. We conclude that there is an inverse relation between the serum cholesterol level and the risk of death from hemorrhagic stroke in middle-aged American men, but that its public health impact is overwhelmed by the positive association of higher serum cholesterol levels with death from nonhemorrhagic stroke and total cardiovascular disease (ICD-9 categories 390 through 459).



