30 de Maio, 2009
A melhor abordagem a qualquer problema é, por incrível coincidência, a única abordagem que você conhece
Autor: O Primitivo. Categoria: Saúde
Fonte: "Build a Better Life by Stealing Office Supplies",
Scott Adams.
O cartoon acima é extraído de um dos meus livros favoritos (estou a falar a sério, adoro o Dilbert e o seu cão Dogbert), o "Construa uma Vida Melhor Roubando Material de Escritório", de Scott Adams. Todo ele é uma sátira acerca da vida moderna empresarial mas, se for interpretado em sentido mais lato, está lá resumida boa parte de Psicologia humana. Este cartoon, em particular, é extraordinário porque dá a pista para a razão dos problemas multifactoriais serem, tão frequentemente, mal abordados: para a generalidade dos indivíduos, a melhor abordagem a qualquer problema é, por incrível coincidência, a única abordagem que eles conhecem! Por exemplo, para explicar a Obesidade, que é o sintoma (e não a doença) primordial das principais doenças da civilização, a maioria dos especialistas tem opiniões completamente divergentes. Um nutricionista vai dizer-lhe que o problema está na comida, um geneticista dirá que você herdou o gene da obesidade, um fisiologista dir-lhe-á que isso é falta de exercício, uma cartomante explica-lhe que é um bruxedo, etc.
Em bom português, a isto chama-se "puxar a brasa à sua sardinha"! (Eu adoro esta nossa riqueza proverbial, não nos faltam provérbios para tudo). Possivelmente todos eles terão alguma parte da razão, mas perdem-na toda quando tentam sugerir que o cerne do problema, por incrível coincidência, reside quase exclusivamente na área científica que eles dominam e em que se formaram. Bem, para não estar aqui mais com rodeios, o que de facto me leva a escrever este texto, meio a jeito de desabafo, foi este artigo de perguntas/respostas da Lancet, intitulado "Causes and control of excess body fat", do Dr. Jeffrey Friedman, um investigador dos aspectos moleculares do consumo alimentar e regulação do peso corporal. Por incrível coincidência, para este investigador, e é esta a ideia que me fica da leitura do artigo, a questão da obesidade resume-se a uma fatalidade genética, ou molecular, para a qual estávamos já todos pré-dispostos à nascença e da qual não poderemos escapar por via do nosso livre arbítrio. Isto é tudo muito lindo e científico, mas vejamos agora alguma evidência anedótica em contrário. E, note-se, casos isolados não fazem ciência mas servem para invalidar uma hipótese teórica.
Como, de momento, o meu desporto favorito é a corrida, apresento aqui, a título ilustrativo, três artigos sobre pessoas que eram "atletas" de sofá e telecomando, com obesidade mórbida ou que andavam por lá perto, e que, TENDO RESOLVIDO mudar o seu estilo de vida, "largaram o corpo antigo no passado" e hoje andam a fazer meias-maratonas e maratonas. São os chamados "atletas de pelotão", o que os americanos chamam "guerreiros de fim-de-semana", grupo no qual eu também me integro, com o maior orgulho e prazer. O primeiro é d’O Mundo da Corrida, relatando um caso português, e os outros dois são da Runner’s World:
1) "Como perder 29 quilos a correr", Coluna Atletas do Pelotão, revista Mundo da Corrida;
Fonte: "Como perder 29 quilos a correr",
Mundo da Corrida.
2) "Fit to Teach", Runner’s World, pgs 23-24, April 2008;
3) "How I ran of 11 stone", pgs. 58-59, Februrary 2008.
Neste momento você poderá estar a pensar que estes são casos completamente isolados e extraordinários, tão invulgares que até aparecem em revistas. Mas não, há centenas, há milhares destes casos de sucesso, de pessoas que eram iguaizinhas a si, com essa mesma barriga de quem come muitos cereais "saudáveis", pessoas sedentárias da civilização que, certo dia, decidem levantar-se do sofá, desligar a televisão, e sair para a rua andar a pé, primeiro 20 minutos, depois 35 minutos, depois 1 hora, 3 ou 4 vezes por semana. E na semana seguinte, correr 15 minutos, estoirar e ficar a deitar os bafos. Mas não desistir e no dia seguinte correr o mesmo tempo mas com menos desgaste. E continuar, até ao dia em que, passados 6 meses, estão com 10 ou 15 quilos a menos, já a fazer os 10 km de corrida em menos de 1 hora. E por aí em diante, até conseguir, 2 anos depois, com 20 ou 30 quilos a menos, baixar as 2 horas na 1/2 Maratona. Por esta altura, a pessoa já terá interiorizado, há muito, que a actividade física é a coisa mais fundamental para a sua saúde, pela simples razão de que já esteve dos dois lados da barricada e percebe a importância de andar a pé, de correr, de não estar, por exemplo, no sofá ou no automóvel, essa máquina destruidora da saúde.
E é esta importância mágica da actividade/exercício físico que, infelizmente, todos estes teóricos que, apesar de serem grandes cientistas, investigadores ou meros jornalistas sem jeito para ciência, simplesmente não conseguem entender, porque nunca praticaram desporto e estão plenamente convencidos que a saúde, apesar de ser multifactorial, por incrível coincidência, perde toda essa multifactorialidade para a sua especialidade profissional. A meu ver, pela lógica da predisposição genética do artigo da Lancet, poderemos também concluir que estes indivíduos terão algum "gene anti-sofá" especial que os predispôs a, certo dia em suas vidas, levantarem-se do sofá e tornarem-se invulgares atletas, enquanto a restante população, biológica e fisiologicamente a eles idêntica, ou quase, continuará, por via das forças inultrapassáveis da genética, condenada às doenças da civilização? Deixo a sugestão a qualquer interessado de ir observar a chegada de uma prova de corrida, ver os indivíduos que completam os 10 km em menos de 50 minutos e/ou os que fazem a 1/2 maratona em menos de 1h50m. São aos milhares, todos praticam exercício regularmente e nenhum deles é obeso. Será pura e mera coincidência? Já sabemos que as pessoas gostam de acreditar em coisas estranhas, mas há limites, não é?
Em suma, é tudo isto que eu referi que gera, continuamente, a mais inacreditável desinformação, para a qual este artigo de perguntas/respostas da Lancet, em minha opinião, também contribui largamente (note-se inclusivamente, e não é por acaso, que uma das perguntas do artigo até é "Are you saying that obesity is not a disease of lifestyle?"), porque sistematicamente se tenta fazer passar a mensagem, supostamente baseada em factos científicos, de que as doenças da civilização resultam de causas unifactoriais, como só a comida, ou só o sedentarismo, ou só os genes, ou só o metabolismo/fisiologia, etc. E por incrível coincidência, para esses "especialistas", a melhor abordagem para o problema, da obesidade e das doenças da civilização, ou para qualquer outro problema, será sempre a única abordagem que eles conhecem!




